Começas a reparar bem no mundo à tua volta, nas pessoas que te rodeiam. Os amigos, que sempre foram tantos e tão bons, começam a desvanecer-se. Estando perto de ti, não estão ao teu lado. Não conseguem, tu não deixas. Criaste um abismo entre vocês. Ninguém chega perto de ti, enterraste-te demasiado fundo. Se antes te sentias amada, agora sentes um vazio no sítio de onde esse amor partiu. Para onde foi? Porque não volta? As pessoas abandonam-te. Aprendem a amar outros, com tanta ou mais paixão do que te amaram a ti. Porquê? No início não compreendes. O que se passa? O que é que fizeste? És a mesma pessoa, não mudaste. Antes elas desceriam o abismo por ti. Então, pouco a pouco, percebes que o problema é teu. Só pode ser teu. Os teus amigos ainda lá estão, mas agora já te deixaram partir. Deixaram-te passar a partir do momento em que os deixaste passar a eles. Cansaram-se de esperar. Devias ter mudado enquanto podias, o problema é teu. Os defeitos são teus. Ninguém consegue viver com eles para sempre. As pessoas cansam-se.
Então odeias-te. Repudias-te, por seres quem és. Adormeces todas as noites, de lágrimas nos olhos por saberes que não podes mudar isso, e odeias-te ainda mais. Não serves, há alguém melhor. És quem és, mas não és boa assim, não és boa o suficiente. Demasiados defeitos, as pessoas cansam-se. E acordas todas as manhãs, já com um destino traçado. Não importa o que fazes nesse dia, até te deitares novamente. Quando adormeceres, vai ser sempre igual. Vazio.
Sonhas. Um dia, foste brilhante. Vês-te lá, envolta em pessoas. Não estavas sempre feliz, mas na altura as coisas eram diferentes. Estavas completa, tinhas esperança. Ainda não tinha começado, eles ainda estavam todos lá. Gostavam de ti. Sopras uma vela e as pessoas aplaudem. Que idade terias? Olhas para ti nesse tempo atrás, quando sorrias mais, brincavas mais, te amavas mais. E perguntas a ti própria o que aconteceu: Para onde é que foste, pequenina, minha rapariguinha brilhante? Onde te perdeste, quando te perdeste? Quantas pessoas deixaste pelo caminho? E quantas ainda deixas, agora que não existes? Não há resposta e só o eco se despede. O sonho acaba. E agora, quem és? Onde vais? Perguntas para o escuro, na solidão da noite. Mas não há respostas. Eles deixaram-te. Desistiram. As pessoas cansam-se.
Lutas contigo mesma. Talvez se fizesses as coisas de maneira diferente, se esquecesses os medos que te assaltam e vivesses a vida em vez de a lamentar. Mas o teu coração desapareceu. Como ele era, pelo menos. As pessoas ainda vislumbram o sorriso e a menina brilhante. Por trás, resta o vazio.
Estás sozinha, anoiteceu. Estás escuro lá fora e o teu quarto está tal e qual como em todas as outras noites. Também como acontece em todas as outras, nesta noite precisarias de um abraço. Mas eles não podem adivinhar. Nem podem estar de guarda para sempre, cansam-se. Então, esta noite como todas as noites, vai ser passada assim. O teu quarto está vazio, tal como o teu coração. Não há ninguém para te confortar e será assim todas as noites até voltares a deixar que te amem. Para isso, precisas de voltar a gostar de ti, precisas de voltar a encontrar a menina brilhante. Mas como? Ela parece ter desaparecido há tanto tempo.
Continua a procurar. Volta para a cama, volta a chorar esta noite e a acordar na manhã seguinte já sabendo que a próxima noite vai ser vazia. Ainda deves ter uma pequena esperança de a encontrar. Portanto procura-a e tenta viver como podes. Sem sorrisos, talvez, mas com alguma esperança. Talvez se ela voltar tu te vás embora e os sorrisos e o amor voltem. Procura-a, volta a amar-te. Depois volta a deixa-los amar. Faz isso, ou desiste.

