2.11.06

Recordar


Sinto falta da cidade perfeita. Das suas ruas, da sua agitação, dos seus telhados, da sua lua cheia, da sua intemporalidade. Da família… Quanto tempo até voltar?

Sinto falta da altura em que todas as pessoas próximas me pareciam amigos genuínos. E ainda antes, da altura em que o eram de facto. Sem perguntas, sem segundas intenções, sem intrigas. Impossível recuperar.

Sinto falta do meu cantinho no Verão, com a sua magia e simplicidade. Mais do que isso, sinto falta da altura em que quinze dias no Verão eram suficientes para viver uma vida inteira. Em que quinze dias serviam e valiam por todo um ano. Em que regressar era a única coisa que importava, quando tudo o resto parecia em vão. Sem problemas. Um mundo só nosso, onde não importava que aventuras e desventuras pudéssemos viver, porque no final acabava sempre por ser o mais importante. Para onde foste?

Sinto falta do passado. De tempos felizes, em que quase tudo tinha uma razão de ser e o que não tinha não importava. Quando havia perspectiva, sonhos e algo mais a que me prender do que o que há agora. Sinto falta das viagens de família, dos fins-de-semana passados a brincar com os meus primos, dos meus jogos de infância, da simplicidade e sinceridade de tudo o que fazíamos na altura. Nunca voltar.

Sinto falta de dançar sem me sentir observada. De cantar sem me sentir observada. De andar sem me sentir observada. De viver sem que a opinião dos outros importe. De não me sentir embaraçada por um grito genuíno de felicidade, ou uma observação que me parecia acertada. Onde? Há muito tempo perdido.

Recordar, viver no passado. Sinto falta de tudo o que tinha antes, sem esperança de voltar. O importante ficou para trás. Para onde ir?

*Imagem: Last Days of Spring by~bubble-gum-heart