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Sabes-me a chumbo. Tu, todos os que vieram antes e todos os que poderão vir um dia. Por agora, não há memórias doces nem esperanças de felicidade. Por agora, sabem-me a chumbo, a pólvora, a morte. São dor, esquecimento, rejeição, perda, e tudo o que possa fazer sofrer. Depois, com um estrondo que vem como que finalizar a ária, são explosão e lágrimas. Restam só os resquícios. Os cortes na pele e no coração, as feridas que se incendeiam novamente de cada vez que o fogo parece começar a extinguir-se. Ardem incansavelmente, sem querer partir, sem querer deixar-me. As de agora e as de sempre. Hoje, ontem, amanhã. O agora, o antes, o depois. Qual é a diferença, se a dor é sempre a mesma?
Ver e fingir que não vejo. Amar e fingir que odeio. Sofrer e fingir que o deixo. Sonhar e fingir que esqueci. O coração pesa. Sobrevivo aos dias e às noites como se as feridas abertas da minha pele me dessem pequenos choques de ânimo. Dão-me força de cada vez que o fogo atenua e roubam-ma logo em seguida. Retiram-ma ao mesmo tempo que o chumbo volta. Nessa altura, é inevitável. A dor é demasiada para conseguir focar o mundo real e fico fechada dentro do meu próprio peito, um lugar perigoso e incerto, onde cada passo é traiçoeiro.
Alguns chamam-me ao longe. Dizem palavras de carinho, que caiem como flocos de neve no meu corpo aprisionado. Derretem-se num instante, mas eu permaneço sólida. Ao fundo, nesse mundo real, posso distinguir, se observar com atenção, os contornos da absolvição. A uma distância mínima, bastam uns passos. Percorrer aquele túnel e espreitar lá para fora. Esticar uma mão e agarrá-la. E depois adeus. Adeus Amor, adeus dor. Adeus glória falsa, adeus faca de dois gumes. Adeus agonia.
Já não sabe como antes. O amor não passa de chumbo, que se transforma em pó. Por causa dele não posso respirar livremente. Prende-se e entranha-se em cada veia e nunca parte. Arranha, mesmo anos passados. O chumbo pode desaparecer, o sangue pode circular, o coração pode estar inteiro…mas a cinza nunca parte. Nunca deixa de doer, não sara com o tempo. A angustia fica para sempre, e o para sempre só tem uma solução...
Foto: The End by Madsky, Deviantart
Titulo do post: Episódio do Grey's Anatomy e
