Há uma torre perto do sítio onde vivo. Ao contrário do que acontece nas histórias, não está no topo de uma colina e não é feita de mármore nem reluz quando iluminada pelo sol. De facto, ergue-se entre montanhas e mal a consigo ver da minha janela. Raramente é iluminada pelo sol e é preciso andar durante horas para lá chegar. Às vezes, contudo, gosto de ir até lá. Junto uns amigos, faço as malas e partimos na nossa peregrinação. Chegamos cansados, ofegantes, mas vale a pena. Porquê? Por ela, claro.
Ainda não o mencionei? É que no topo dessa torre, vive uma princesa. Não, não se chama Rapunzel nem lhe pedimos que atire as tranças pela janela para a podemos alcançar. Ela não está trancada e podemos facilmente subir as escadas para ir ter com ela. O seu nome? Ela tem tantos.
Esta princesa gosta de dizer que não acredita em contos de fadas, embora faça parte de um. É idealista, embora não o veja Tem um coração feito de ouro, que adora oferecer. Às vezes, quando a magoam, fecha a sua janela, tranca a sua porta e não deixa ninguém entrar. Eu espero que ela desça, pacientemente sentada no primeiro degrau das escadas. Quando por fim ela se junta a mim, vem com um sorriso despreocupado como se nada se tivesse passado. Diz-me que não acredita em romantismos, ou em amor, mas transborda deles. Eu abano a cabeça e chamo-lhe tola, enquanto me rio. Sei que a deixo de orgulho ferido de cada vez que o faço, mas é que ela não compreende o quão errada está e eu sei que não a farei mudar de ideias. Rio-me. Rio-me porque é a única coisa que posso fazer e porque às vezes esqueço-me. Esqueço-me que a minha princesinha nem sempre é forte. Esqueço-me de que ela não é perfeita, que é jovem, tal como eu. É que ela foi magoada, mas ainda é inocente. É jovem, inocente, e por vezes isso torna-la estúpida. Estúpida…talvez seja uma palavra demasiado forte. Mas não me ocorre outra para descrever aqueles momentos em que ela se esquece do que é.
Esta princesa não é como qualquer outra princesa de que tenham ouvido falar. É uma sonhadora, embora ainda não o saiba e embora pense que os sonhos não são para ela. Gosta de dar àqueles que ama, mas de receber também. Não vive num país verde, não é filha de reis, não tem cabelos cacheados. Quando está muito entusiasmada, canta musicas que são só dela. Não é nenhum rouxinol, não conseguiria adormecer um dragão com a sua voz, mas eu gosto de a ouvir. Gosto da sua harmonia, do seu brilho quando canta. Gosto de cada palavra que ela canta, porque de cada vez que o faz essa ganha um novo significado. É o único anjo que pode cantar para mim, porque ela é o único que alguma vez vai perceber o verdadeiro significado da música. Mais ninguém no mundo consegue ouvir o bater de um coração assim. Mais ninguém no mundo consegue tocar no meu coração assim.
Para além de musica, ela gosta da arte do cinema e aplaude-a de pé. Gosta de doces, especialmente de gelados. Na sua torre, tem os seus nomes imprimidos em papeis cor-de-rosa e sorteia-os todos os dias da caixa dos desejos. Gosta de covinhas num rosto com um sorriso carinhoso e chora com tempestades. Não gosta de dor, embora a inflija a si própria. Não é uma princesa rica, mas também não é pobre mas feliz, como as princesas dos contos de fadas. Tem as suas ambições, os seus desejos. Quando estamos juntas, gostamos de declarar uma à outra a lista de tudo aquilo que não podemos ter. Ela parece gostar de estar comigo tanto quanto gosto de estar com ela, o que me é estranho. Agora, à medida que o tempo passa, começo a acostumar-me. Aceito que ela me ame tanto como a amo, embora nunca o tenho experimentado. E sei que ela me ama porque quando eu não estou, mesmo nos dias da tempestade que lhe mete tanto medo, ela abre a janela e, ponto a cabeça de fora, pede ao vento que lhe traga noticias minhas. Eu já durmo profundamente, abraçada à minha almofada e rodeada de coisas que me deixam perto dela. Momentos, odores, toques, lembranças, sabores…Ela esta em todo o lado e em mim. Está nos meus sonhos. Imagino-a na sua torre deitar as mãos à chuva e pedir ao vento que cuide de mim enquanto ela não está. No meu sono, sorrio e aconchego-me no seu amor. No meu sonho, conto-lhe histórias e embalo-a nos meus braços. Em ambos, ela é tudo. É a derradeira expressão da minha forma de amar. Foi a minha primeira experiência, o primeiro anjo que eu ajudei a criar. Se ela falhar, continuarei lá. Se ela perder, continuarei lá. Se ela morrer, morremos juntas.
E isso é amor.