1.10.07

Rien de rien...

Um ano. Um ano que parece séculos, porque escolhemos este ano para mudar. E de repente as memórias da altura, aquelas que pareciam momentos insignificantes, voltam em força. A primeira vez que te falei, a primeira vez que me abraçaste…e daquela vez em que adormeci com a cabeça no teu colo.


Olho para trás e afundo-me num pântano de “e ses”, que me destrói. Porque se eu me tivesse sabido comportar há um ano, não precisava de aprender a fazê-lo agora. Bastava ter-me adaptado na altura certa.


Agora que te perdi e te volto a perder de todas as maneiras, recordo-me das conversas e dos sorrisos que deitei fora. É nessas alturas que sei que não te posso culpar por nada. Porque fui eu que me destruí e não tu. E sei agora que nós poderíamos ter sido mais do que apenas nós se eu te tivesse dado uma oportunidade. Mas estava tudo tão confuso e tão distante…


Crescemos, o tempo passou. Aprendemos a lidar com a vida e com nós próprios. Aprendemos a lidar um com o outro, aproximámo-nos, afastámo-nos. Fomos amigos e não fomos, conforme os dias passavam. E agora que passaram séculos e eu queria que me desses a minha oportunidade, tu já não estás lá. E assim te perco, mais uma vez. Para o destino e para o próprio amor, que ama a ironia mais do que alguma vez me amou a mim.


O Tempo passou e o Nós, que nunca chegou a existir, já não É nem pode Ser.


Foto: Jardim da Sereia, Coimbra. No dia em que me convidaste para o baile sem saber que eu estava a ouvir.



17.5.07

Gelo

Na beira de um precipício, ela sentou-se e chorou. Com o cabelo a esvoaçar à sua volta e as faces molhadas de lágrimas, viu a vida passar à frente dos seus olhos e voar para longe, sem que ela estendesse um braço para a apanhar.

E o pior ainda estava para vir? Então que viesse, pois ela já descera todos os degraus até ao poço do seu coração, de onde nunca sairia. Não consegue sentir mais, não consegue sentir menos. Morreu de amor pela dor e pela própria morte.

E diz Pessoa: “Quem vai morrer ainda está vivo, mas quem não vive já morreu”. E ela chora sobre sangue derramado e sobre ossos bolorentos e quebrados. Sobre cadáveres mortes sobre pedras, manchados de cores de guerras, fardados com os seus sonhos. O seu futuro numa fossa onde apenas as memorias mais escondidas chegam.

Junta as mãos numa prece e em vez de pedir por um futuro, implora por um regresso ao passado. Porque o futuro ao seu olhar não chega e no passado tem ela os seus arrepios e borboletas. E assim se deixa ficar, com um bloco de cimento no peito que a empurra para baixo, sempre para baixo. Para o mar gélido. Aí nada restará para a aquecer. Nem as roupas rasgadas, nem restos de um coração aquecido. A água a penetrar pelas falhas de quem é, até a quebrar por completo. E os olhos vazios postos no céu cinzento incharão de lágrimas que já não pode derramar.

Um último adeus que fica. Não escreve uma carta, não há tempo. Mas crava a sua sorte numa pedra próxima. E crava a pedra no seu corpo porque sabe que ela morrerá consigo. Porque nem o que está gravado em pedra dura para sempre e nem o que está gravado em pedra chega aos olhos de quem evita a despedida.

Um passo e a gravidade e o peso de uma consciência que deve e que teme arrancam-na para a queda. No descer, remorsos por quem a ama. Mas isso dura apenas um segundo.

Depois, a dor do corpo iguala-se à da alma. O tempo suficiente para a sentir e sorrir. Assim morre para a vida, como morreu para tudo o resto. Para o amor, para o orgulho, para o sonho. Para onde vai, leva a pureza de dias passados, que lhe lavou a alma. Nada mais a magoa, não há mais dor. Ninguém morre duas vezes.


~~~

Quando gostamos realmente do que escrevemos, mesmo que mais ninguém goste*

Foto: Forgot to breathe por Deftona, deviantArt

Quando o amanhã não morre

Uma vez conheci alguém a quem chamei amor. Foi há muito tempo e muita coisa aconteceu desde então. Mas lembro-me dos pormenores e das juras de amor nunca gastas. Num mundo eterno, com frases tão carregadas de emoção que fariam aqueles que não amam rir. Foi a única vez que as disse sem me arrepender mais tarde.

Lembro-me dos olhos angustiados na despedida, das lágrimas presas pela necessidade de ser forte. Porque era inútil chorar por amor. Não era a ultima vez que nos víamos e havia esperança para o futuro.

Mas agora passaram anos e eu continuo a chorar. E ainda dói, ainda me quebra por dentro. Nunca mais nos vimos, nunca mais nos tocámos. Mas ainda dói. E dói precisamente porque eu ainda tenho esperança no futuro. Um futuro embelezado, para que eu possa sonhar com algo mais do que o que tenho, mas ainda assim um futuro. Posso esperar, sou paciente. Nem preciso que esperes por mim.

Mas há de haver um dia em que eu irei até ti, em que não haverão condicionantes e limites. Depois, deixará de doer para sempre. Ou pelo menos, é isso que eu espero. Quero um final, quero deixar o impasse. Quero passar a não ter porque não quero, ao contrário de não ter porque não posso. Foi a única solução que encontrei. Se não resultar, não tenho para onde ir.

Espero que resulte. Afinal, não te posso amar para sempre.

~~~

Quando estamos sozinhos lembramo-nos sempre do que era não estar =(

Foto: and it was all yellow por Resquicio, deviantArt

8.4.07

Para os meus Cabelos Loiros...

Há uma torre perto do sítio onde vivo. Ao contrário do que acontece nas histórias, não está no topo de uma colina e não é feita de mármore nem reluz quando iluminada pelo sol. De facto, ergue-se entre montanhas e mal a consigo ver da minha janela. Raramente é iluminada pelo sol e é preciso andar durante horas para lá chegar. Às vezes, contudo, gosto de ir até lá. Junto uns amigos, faço as malas e partimos na nossa peregrinação. Chegamos cansados, ofegantes, mas vale a pena. Porquê? Por ela, claro.

Ainda não o mencionei? É que no topo dessa torre, vive uma princesa. Não, não se chama Rapunzel nem lhe pedimos que atire as tranças pela janela para a podemos alcançar. Ela não está trancada e podemos facilmente subir as escadas para ir ter com ela. O seu nome? Ela tem tantos.


Esta princesa gosta de dizer que não acredita em contos de fadas, embora faça parte de um. É idealista, embora não o veja Tem um coração feito de ouro, que adora oferecer. Às vezes, quando a magoam, fecha a sua janela, tranca a sua porta e não deixa ninguém entrar. Eu espero que ela desça, pacientemente sentada no primeiro degrau das escadas. Quando por fim ela se junta a mim, vem com um sorriso despreocupado como se nada se tivesse passado. Diz-me que não acredita em romantismos, ou em amor, mas transborda deles. Eu abano a cabeça e chamo-lhe tola, enquanto me rio. Sei que a deixo de orgulho ferido de cada vez que o faço, mas é que ela não compreende o quão errada está e eu sei que não a farei mudar de ideias. Rio-me. Rio-me porque é a única coisa que posso fazer e porque às vezes esqueço-me. Esqueço-me que a minha princesinha nem sempre é forte. Esqueço-me de que ela não é perfeita, que é jovem, tal como eu. É que ela foi magoada, mas ainda é inocente. É jovem, inocente, e por vezes isso torna-la estúpida. Estúpida…talvez seja uma palavra demasiado forte. Mas não me ocorre outra para descrever aqueles momentos em que ela se esquece do que é.


Esta princesa não é como qualquer outra princesa de que tenham ouvido falar. É uma sonhadora, embora ainda não o saiba e embora pense que os sonhos não são para ela. Gosta de dar àqueles que ama, mas de receber também. Não vive num país verde, não é filha de reis, não tem cabelos cacheados. Quando está muito entusiasmada, canta musicas que são só dela. Não é nenhum rouxinol, não conseguiria adormecer um dragão com a sua voz, mas eu gosto de a ouvir. Gosto da sua harmonia, do seu brilho quando canta. Gosto de cada palavra que ela canta, porque de cada vez que o faz essa ganha um novo significado. É o único anjo que pode cantar para mim, porque ela é o único que alguma vez vai perceber o verdadeiro significado da música. Mais ninguém no mundo consegue ouvir o bater de um coração assim. Mais ninguém no mundo consegue tocar no meu coração assim.


Para além de musica, ela gosta da arte do cinema e aplaude-a de pé. Gosta de doces, especialmente de gelados. Na sua torre, tem os seus nomes imprimidos em papeis cor-de-rosa e sorteia-os todos os dias da caixa dos desejos. Gosta de covinhas num rosto com um sorriso carinhoso e chora com tempestades. Não gosta de dor, embora a inflija a si própria. Não é uma princesa rica, mas também não é pobre mas feliz, como as princesas dos contos de fadas. Tem as suas ambições, os seus desejos. Quando estamos juntas, gostamos de declarar uma à outra a lista de tudo aquilo que não podemos ter. Ela parece gostar de estar comigo tanto quanto gosto de estar com ela, o que me é estranho. Agora, à medida que o tempo passa, começo a acostumar-me. Aceito que ela me ame tanto como a amo, embora nunca o tenho experimentado. E sei que ela me ama porque quando eu não estou, mesmo nos dias da tempestade que lhe mete tanto medo, ela abre a janela e, ponto a cabeça de fora, pede ao vento que lhe traga noticias minhas. Eu já durmo profundamente, abraçada à minha almofada e rodeada de coisas que me deixam perto dela. Momentos, odores, toques, lembranças, sabores…Ela esta em todo o lado e em mim. Está nos meus sonhos. Imagino-a na sua torre deitar as mãos à chuva e pedir ao vento que cuide de mim enquanto ela não está. No meu sono, sorrio e aconchego-me no seu amor. No meu sonho, conto-lhe histórias e embalo-a nos meus braços. Em ambos, ela é tudo. É a derradeira expressão da minha forma de amar. Foi a minha primeira experiência, o primeiro anjo que eu ajudei a criar. Se ela falhar, continuarei lá. Se ela perder, continuarei lá. Se ela morrer, morremos juntas.


E isso é amor.


27.3.07

Qualquer coisa que ficou

Parte, desaparece, evapora. Sem remorsos, sem vinganças. Não os quero, nem a ti. Então por favor, deixa-me para sempre. Depois disso, não te peço mais nada.

Porque hoje parti-me em bocadinhos, deitei fora todos aqueles que ainda te tinham e juntei o que restou. E não importa se deixo vazios, porque tenho cartão colorido para os encher. E tenho uma tesoura para recortar nele todas as formas do mundo.

Porque hoje acordei e percebi que talvez, só talvez, estou melhor sem ti. Porque amor falso é pior que nenhum amor de todo. As memórias não são assim tão boas para chorar sobre elas.

Por isso digo-te: Não és assim tão especial. Não és assim tão único. Talvez o tenhas sido um dia, em ilusões. Mas há tanto à minha frente, ainda. Como tu não, porque tu és veneno. Mas melhor…?

Não me lembro de alguma vez ter esperado algo bom do futuro. Talvez seja pessimismo, mas o melhor disso é que não o esperava contigo, nem o espero sem ti. A linha da vida pode ser curta ou comprida, larga ou estreita. O importante é que tu não cabes nela nem em mim, queiras lá estar ou não. Não me fazes falta. E pela primeira vez isso alegra-me mais do que me entristece.

Devia ter percebido mais cedo o quão fácil era deixar-te partir.


* Imagem: Ao meu Encontro, by Ponto Quente

21.1.07

The Band Aid Only Covers the Bullet Hole


---


Sabes-me a chumbo. Tu, todos os que vieram antes e todos os que poderão vir um dia. Por agora, não há memórias doces nem esperanças de felicidade. Por agora, sabem-me a chumbo, a pólvora, a morte. São dor, esquecimento, rejeição, perda, e tudo o que possa fazer sofrer. Depois, com um estrondo que vem como que finalizar a ária, são explosão e lágrimas. Restam só os resquícios. Os cortes na pele e no coração,
as feridas que se incendeiam novamente de cada vez que o fogo parece começar a extinguir-se. Ardem incansavelmente, sem querer partir, sem querer deixar-me. As de agora e as de sempre. Hoje, ontem, amanhã. O agora, o antes, o depois. Qual é a diferença, se a dor é sempre a mesma?

Ver e fingir que não vejo. Amar e fingir que odeio. Sofrer e fingir que o deixo. Sonhar e fingir que esqueci. O coração pesa. Sobrevivo aos dias e às noites como se as feridas abertas da minha pele me dessem pequenos choques de ânimo. Dão-me força de cada vez que o fogo atenua e roubam-ma logo em seguida. Retiram-ma ao mesmo tempo que o chumbo volta. Nessa altura, é inevitável. A dor é demasiada para conseguir focar o mundo real e fico fechada dentro do meu próprio peito, um lugar perigoso e incerto, onde cada passo é traiçoeiro.

Alguns chamam-me ao longe. Dizem palavras de carinho, que caiem como flocos de neve no meu corpo aprisionado. Derretem-se num instante, mas eu permaneço sólida. Ao fundo, nesse mundo real, posso distinguir, se observar com atenção, os contornos da absolvição. A uma distância mínima, bastam uns passos. Percorrer aquele túnel e espreitar lá para fora. Esticar uma mão e agarrá-la. E depois adeus. Adeus Amor, adeus dor. Adeus glória falsa, adeus faca de dois gumes. Adeus agonia.

Já não sabe como antes. O amor não passa de chumbo, que se transforma em pó. Por causa dele não posso respirar livremente. Prende-se e entranha-se em cada veia e nunca parte. Arranha, mesmo anos passados. O chumbo pode desaparecer, o sangue pode circular, o coração pode estar inteiro…mas a cinza nunca parte. Nunca deixa de doer, não sara com o tempo. A angustia fica para sempre, e o para sempre só tem uma solução...


Absolvição.
---

Foto: The End by Madsky, Deviantart
Titulo do post: Episódio do Grey's Anatomy e

2.11.06

Recordar


Sinto falta da cidade perfeita. Das suas ruas, da sua agitação, dos seus telhados, da sua lua cheia, da sua intemporalidade. Da família… Quanto tempo até voltar?

Sinto falta da altura em que todas as pessoas próximas me pareciam amigos genuínos. E ainda antes, da altura em que o eram de facto. Sem perguntas, sem segundas intenções, sem intrigas. Impossível recuperar.

Sinto falta do meu cantinho no Verão, com a sua magia e simplicidade. Mais do que isso, sinto falta da altura em que quinze dias no Verão eram suficientes para viver uma vida inteira. Em que quinze dias serviam e valiam por todo um ano. Em que regressar era a única coisa que importava, quando tudo o resto parecia em vão. Sem problemas. Um mundo só nosso, onde não importava que aventuras e desventuras pudéssemos viver, porque no final acabava sempre por ser o mais importante. Para onde foste?

Sinto falta do passado. De tempos felizes, em que quase tudo tinha uma razão de ser e o que não tinha não importava. Quando havia perspectiva, sonhos e algo mais a que me prender do que o que há agora. Sinto falta das viagens de família, dos fins-de-semana passados a brincar com os meus primos, dos meus jogos de infância, da simplicidade e sinceridade de tudo o que fazíamos na altura. Nunca voltar.

Sinto falta de dançar sem me sentir observada. De cantar sem me sentir observada. De andar sem me sentir observada. De viver sem que a opinião dos outros importe. De não me sentir embaraçada por um grito genuíno de felicidade, ou uma observação que me parecia acertada. Onde? Há muito tempo perdido.

Recordar, viver no passado. Sinto falta de tudo o que tinha antes, sem esperança de voltar. O importante ficou para trás. Para onde ir?

*Imagem: Last Days of Spring by~bubble-gum-heart