21.1.07

The Band Aid Only Covers the Bullet Hole


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Sabes-me a chumbo. Tu, todos os que vieram antes e todos os que poderão vir um dia. Por agora, não há memórias doces nem esperanças de felicidade. Por agora, sabem-me a chumbo, a pólvora, a morte. São dor, esquecimento, rejeição, perda, e tudo o que possa fazer sofrer. Depois, com um estrondo que vem como que finalizar a ária, são explosão e lágrimas. Restam só os resquícios. Os cortes na pele e no coração,
as feridas que se incendeiam novamente de cada vez que o fogo parece começar a extinguir-se. Ardem incansavelmente, sem querer partir, sem querer deixar-me. As de agora e as de sempre. Hoje, ontem, amanhã. O agora, o antes, o depois. Qual é a diferença, se a dor é sempre a mesma?

Ver e fingir que não vejo. Amar e fingir que odeio. Sofrer e fingir que o deixo. Sonhar e fingir que esqueci. O coração pesa. Sobrevivo aos dias e às noites como se as feridas abertas da minha pele me dessem pequenos choques de ânimo. Dão-me força de cada vez que o fogo atenua e roubam-ma logo em seguida. Retiram-ma ao mesmo tempo que o chumbo volta. Nessa altura, é inevitável. A dor é demasiada para conseguir focar o mundo real e fico fechada dentro do meu próprio peito, um lugar perigoso e incerto, onde cada passo é traiçoeiro.

Alguns chamam-me ao longe. Dizem palavras de carinho, que caiem como flocos de neve no meu corpo aprisionado. Derretem-se num instante, mas eu permaneço sólida. Ao fundo, nesse mundo real, posso distinguir, se observar com atenção, os contornos da absolvição. A uma distância mínima, bastam uns passos. Percorrer aquele túnel e espreitar lá para fora. Esticar uma mão e agarrá-la. E depois adeus. Adeus Amor, adeus dor. Adeus glória falsa, adeus faca de dois gumes. Adeus agonia.

Já não sabe como antes. O amor não passa de chumbo, que se transforma em pó. Por causa dele não posso respirar livremente. Prende-se e entranha-se em cada veia e nunca parte. Arranha, mesmo anos passados. O chumbo pode desaparecer, o sangue pode circular, o coração pode estar inteiro…mas a cinza nunca parte. Nunca deixa de doer, não sara com o tempo. A angustia fica para sempre, e o para sempre só tem uma solução...


Absolvição.
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Foto: The End by Madsky, Deviantart
Titulo do post: Episódio do Grey's Anatomy e

3 comentários:

Anónimo disse...

Como já te tinha dito... Lindo *_* e pessoal, o que obviamente me impede de apreciar a totalidade do poema. Mesmo assim... consegues exprimir muito bem a mensagem que pretendes transmitir, para além de que é sempre giro ver pessoas a atirarem-se de prédios.
Beijos e tal, e continua a "poetizar", muahah.

Anónimo disse...

Quanto ao texto em si, está mesmo bonito. A sério, adoro as metáforas e comparações todas que usaste.
Quanto ao conteúdo... Oh bolas, eu amo-te. Isso vale mais que eles todos juntos, ok? :D
Não quero que estejas assim. Quero que te sintas bem e quero ajudar ao máximo nisso. Só que muitas vezes não sei como...
Qualquer coisa, eu estou aqui, ok? Não hesites em vir ter comigo por qualquer razão...

Amo-te bebé. O sabor a chumbo vai desaparecer, acredita em mim *

Anónimo disse...

Escreves tão bem O.O .. !

Adorei!
Está forte. Depois de o ler tive de ler a pagina toda.

Concordo com amora .. 'O sabor a chumbo vai desaparecer' *

E siim .. escreves coisas qe, apesar de tristes, são liindas !

És daqelas pessoas qe parecem estar sempre bem .. ou se não estão bem também não estão mal. Ver.te assim faz com qe as coisas pareçam menos controláveis e menos perfeitas. É o 'quebrar' negativo da monotonia do nosso dia a dia. Eu troco de veias contigo!

Adoro.te sim ?
Siim *(=