17.5.07

Gelo

Na beira de um precipício, ela sentou-se e chorou. Com o cabelo a esvoaçar à sua volta e as faces molhadas de lágrimas, viu a vida passar à frente dos seus olhos e voar para longe, sem que ela estendesse um braço para a apanhar.

E o pior ainda estava para vir? Então que viesse, pois ela já descera todos os degraus até ao poço do seu coração, de onde nunca sairia. Não consegue sentir mais, não consegue sentir menos. Morreu de amor pela dor e pela própria morte.

E diz Pessoa: “Quem vai morrer ainda está vivo, mas quem não vive já morreu”. E ela chora sobre sangue derramado e sobre ossos bolorentos e quebrados. Sobre cadáveres mortes sobre pedras, manchados de cores de guerras, fardados com os seus sonhos. O seu futuro numa fossa onde apenas as memorias mais escondidas chegam.

Junta as mãos numa prece e em vez de pedir por um futuro, implora por um regresso ao passado. Porque o futuro ao seu olhar não chega e no passado tem ela os seus arrepios e borboletas. E assim se deixa ficar, com um bloco de cimento no peito que a empurra para baixo, sempre para baixo. Para o mar gélido. Aí nada restará para a aquecer. Nem as roupas rasgadas, nem restos de um coração aquecido. A água a penetrar pelas falhas de quem é, até a quebrar por completo. E os olhos vazios postos no céu cinzento incharão de lágrimas que já não pode derramar.

Um último adeus que fica. Não escreve uma carta, não há tempo. Mas crava a sua sorte numa pedra próxima. E crava a pedra no seu corpo porque sabe que ela morrerá consigo. Porque nem o que está gravado em pedra dura para sempre e nem o que está gravado em pedra chega aos olhos de quem evita a despedida.

Um passo e a gravidade e o peso de uma consciência que deve e que teme arrancam-na para a queda. No descer, remorsos por quem a ama. Mas isso dura apenas um segundo.

Depois, a dor do corpo iguala-se à da alma. O tempo suficiente para a sentir e sorrir. Assim morre para a vida, como morreu para tudo o resto. Para o amor, para o orgulho, para o sonho. Para onde vai, leva a pureza de dias passados, que lhe lavou a alma. Nada mais a magoa, não há mais dor. Ninguém morre duas vezes.


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Quando gostamos realmente do que escrevemos, mesmo que mais ninguém goste*

Foto: Forgot to breathe por Deftona, deviantArt

4 comentários:

D.R.Cruz disse...

consegues transmitir bem os sentimentos...tocou me...parabens!

Lee disse...

Milhões de arrepios tão saindo do meu corpo com essa leitura tão forte, tão linda, tão... tão.
Nossa, sinto vontade de chorar, de segurar a mão dessa pessoa que cai, que morre, mas só uma vez. Sinto vontade de puxar a mão e falar: espera um segundo, conversa comigo. Tudo que eu queria, trocas de palavras. Porque as suas são divinas.

Anónimo disse...

Somente é corajoso aquele que consegue demonstrar os seus sentimentos e transparece-los a quem os merece.
beijinhos ************

Lee disse...

Então, esse meu blog que você visitou não existe mais. Quer dizer: existe, está lá, mas ele está apagado, esquecido. Não o apago, porque gosto de sua cara e das coisas lá escritas. Porém o outro que me conta, que me vale: o Mudos Diálogos.
Quando puder, passe por lá.
Eu espero outro post seu. Espero "esperando" ansiosamente.